Que mãe está verdadeiramente
satisfeita com o tempo dispensado e gasto com os filhos? Levante a mão ou faça
o primeiro comentário aquela que não carrega um grama de culpa.
Pois bem, para aliviar a barra que
nós, mães culpadas, que não levantamos a mão, trabalhamos fora e gostamos
verdadeiramente de estar com nossos filhos, carregamos, a psicóloga, escritora
e mãe Cecília Troiano, 46 anos, tem uma boa notícia. Crianças se adaptam à
realidade, e constroem seu ideal de felicidade em torno das próprias
experiências. Para as crianças, tanto faz se a mãe trabalha ou não fora, desde
que essa seja uma situação bem resolvida, afirma Cecília, depois de ouvir 500
crianças e jovens, filhos da classe AB paulista. Autora de Vida de Equilibrista: dores e delícias da mãe que trabalha, Cecília acaba de lançar seu segundo livro, Aprendiz de equilibrista: Como ensinar os filhos a conciliar família e
carreira, escrito com base nessa pesquisa.
Entrevistei Cecília ontem para o
Mulher7x7.
Mulhe7x7: Sua pesquisa é a redenção para nossa
culpa?
Cecília Troiano: (risos) No sentido de que precisamos perder essa mania de achar que tudo que acontecesse é porque a gente trabalha. Se a mãe está bem resolvida, com qualquer situação, os filhos vivem bem com isso. O trabalho não está pautando o projeto de felicidade dos nossos filhos.
Cecília Troiano: (risos) No sentido de que precisamos perder essa mania de achar que tudo que acontecesse é porque a gente trabalha. Se a mãe está bem resolvida, com qualquer situação, os filhos vivem bem com isso. O trabalho não está pautando o projeto de felicidade dos nossos filhos.
Mães que não trabalham fora dão mais atenção às
crianças?
Não. O que eu percebo é que a mãe
tempo integral, quando tem hora extra, quer fazer algo por si, ao passo que a
mãe que trabalha usa seu tempo extra para se dedicar aos filhos. Certa
vez ouvi de um pediatra que ausência de mãe é prejudicial, mas excesso de mãe
também intoxica. Não se pode abandonar, mas também não dá para cultivar essa
ilusão de que eles precisam de nós tempo integral. Filho precisa de espaço e
entender que a mãe sai e retorna, que a vida é assim, faz parte da educação
deles.
Tem um dado aparentemente contraditório na resposta
dos filhos: vêem com naturalidade a mãe trabalhar, mas reclamam mais presença
dela. É dos filhos quererem sempre mais ou tem aí uma ausência sentida que a
mãe não consegue compensar?
Quando perguntei o que eles gostariam
de mudar na mãe, apareceu essa demanda de “ficar mais tempo comigo”, mas, ao
mesmo tempo, ganhar mais dinheiro. Os filhos sempre querem o melhor dos dois
mundos. Os filhos maiores, sobretudo, vêem benefícios no fato de a mãe
trabalhar. Mas criança sempre quer mais. Se deixar, vê o mesmo filme dez vezes.
Tem um pouco isso, da criança não se conformar, o que é próprio da criança e
não uma expressão da ausência da mãe. Suas filhas, que são pequenas estão nessa
fase, não é? Adolescente também têm demandas, mas também querem os seus
momentos.
Quando a senhora pergunta as justificativas dos
filhos para o fato de a mãe trabalhar fora, aparecem apenas dados materiais:
ganhar dinheiro, dar vida melhor à família e comprar coisas para eles. A
senhora mesma chama a atenção que, ou é uma história que precisa ser mais bem
contada, ou está todo mundo trabalhando só para pagar contas. Como essa
pesquisa pegou classes mais abastadas, não parece ser o caso de só pagar as
contas. Isso me chamou a atenção. Não estamos diante de um modelo equivocado de
valores transmitidos às crianças?
Focar apenas o lado econômico
realmente é passar a idéia de que trabalho é só fonte de sacrifício. A gente
passa o modelo errado de conquista e gratificação que o trabalho pode trazer.
Uma psicopedagoga que entrevistei disse que precisamos falar de preço e valor.
Preço é o que eu ganho, o dinheiro. O valor é a realização. É possível
ter as duas coisas no mesmo lugar.
No item “atividades associadas à mamãe” aparece
arrumação da casa, obrigações, obrigações, e lá pelo sexto lugar “brincar com
os filhos”. Com os pais é diferente. Esse item aparece mais alto na lista das
prioridades. Quer dizer que a mulher é a que não para e o papai é o divertido
da história?
Parece que, mesmo as mulheres que
contam com os maridos, ficam muito no fazer, fazer, fazer,enquanto os pais
parecem aproveitar mais a curtição. É um recado para a mulher abrir mais espaço para o homem assumir
certas obrigações e
se aproximar mais da brincadeira. No meu primeiro livro, eu publico a carta de
um pai carioca falando justamente disso. Até porque muita mulher não abre mão
desse território de poder: eu faço, eu decido, aí fica esse círculo vicioso, a
mãe faz tudo, e o pai brinca.
A que conclusão a senhora chegou depois de ouvir
tantos filhos?
Eles serão melhores equilibristas do
que nós. Tendem a buscar mais equilíbrio na vida profissional e, possivelmente,
irão usufruir de papéis mais bem definidos para homens e mulheres como pais e
mães de uma família. O trabalho sempre será importante pelo dinheiro que traz,
esse é o motor da economia, mas também por outros valores que agreguem à nossa
vida
Fiquei pensando nessa história do “mamãe vai
trabalhar para ganhar dinheiro”. Por que se passamos a ideia de que o nosso
trabalho existe apenas para pagar contas e comprar coisas legais, e se o nosso
trabalho também rouba nosso tempo ao lado deles, é lógico que nossos filhos vão
crescer com a ideia de que é preciso trabalhar menos, mas pelo motivo
errado. Não porque imaginam uma vida mais prazerosa no convívio com a
família, mas porque estarão escapando do inevitável sacrifício do trabalho.
E mais: ainda que hoje seu trabalho
não lhe traga o prazer sonhado, ou por mais que você trabalhe apenas para pagar
contas, você pode ensinar aos seus filhos que o trabalho deles poderá, sim, ser
outra fonte de prazer e realização, um desejo legítimo e necessário, do tamanho
exato do sonho de uma criança.
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